Você está deprimido ou é viadagem?

Sou leitor e espectador assíduo de Luiz Carlos Prates. Já disse isso aqui? Acho que sim, mas não custa ratificar. Luiz Carlos Prates é meu analista diário. Leio sua coluna no jornal, assisto um tele-jornal para acompanhar seus comentários e, quando dá, o ouço no rádio durante a tarde.

O Prates tem batido numa tecla muito interessante nos últimos dias, o caso da depressão. Ele afirma que muitas pessoas têm confundido suas tristezas, seus amargores existenciais com este quadro clínico que não é tão comum.

Cito dois trechos de sua coluna no Diário Catarinense, datada de 23 de Março deste ano:

A fila era enorme, perdia-se na extensão da calçada. Um fila triste e equivocada: uma fila de pessoas esperando para ganhar caixinhas de comprimidos antidepressivos num posto de saúde. Eram muitos na fila. Outros tantos ficaram em casa, ainda contando os comprimidos lhes restavam para os dias futuros. Não é depressão a moléstia de que tratam. Na fila de centenas de pessoas, poucas na verdade sofrem dessa patologia mal diagosticada. A depressão existe sim, mas é de poucos. Do que mais sofrem as pessoas é de “menoscabo existencial”, auto-avaliação negativa. Não me vou alongar em definições do que vem a ser a verdadeira depressão, mas quero dizer aos que estavam na fila que poucos ali, talvez nenhum, sofre de depressão. (…)

(…) Nunca soube de um sujeito que acaba de ganhar na loteria e afundado na depressão. Viver com utilidade é antidepressivo. Sexo caseiro é antidepressivo… ainda que a vovó já seja vovó… E assim o vovô. Ficar irritado com isso é sinal de doença, e essa não será depressão. Será burrice.

Hoje comprei num sebo O Analista de Bagé, livro de Luís Fernando Veríssimo, que conta causos de um analista freudiano ortodoxo. Tão ortodoxo, que acerca do mesmo assunto que trato neste post, tiro esta pérola do livro, na crônica chamada Finitude:

- É uma coisa existencial, entende?
- Continua, no más.
- Começo a pensar, assim, na finitude humana em contraste com o infinito cósmico…
- Mas tu é mais complicado que receita de creme Assis Brasil.
- E então tenho consciência do vazio da existência, da desesperança inerente à condição humana. E isso me angustia.
- Pos vamos dar um jeito nisso agorita – diz o analista de Bagé, com uma baforada.
- O senhor vai curar a minha angústia?
- Não, vou mudar o mundo. Cortar o mal pela mandioca.
- Mudar o mundo?
- Dou uns telefonemas aí e mudo a condição humana.
- Mas… Isso é impossível!
- Ainda bem que tu reconhece, animal!
- Entendi. O senhor quer dizer que é bobagem se angustiar com o inevitável.
- Bobagem é espirrá na farofa. Isso é burrice e da gorda.
- Mas acontece que eu me angustio. Me dá um aperto na garganta…
- Escuta aqui, tchê. Tu te alimenta bem?
- Me alimento.
- Tem casa com galpão?
- Bem… Apartamento.
- Não é veado?
- Não.
- Tá com os carnê em dia?
- Estou.
- Então, ó bagual. Te preocupa com a defesa do Guarani e larga o infinito.

Curto e grosso. Assim como o Prates, “índio véio” do mesmo pago, que não é vivente dos arreios mas é índio macharrão. O Analista de Bagé tá certo. Falar nisso, quando é o próximo jogo do Guarani?

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5 Responses to “Você está deprimido ou é viadagem?”

  1. Rafael disse:

    O Analista de Bagé é um excelente livro, li a muito tempo atrás, acho que está na hora de fazer uma revisão. Quanto ao Prates, tem gente que não gosta, mas eu sou um dos que gosta de levar (ás vezes) as bordoadas que ele costuma dar no rádio.

    Abraços

  2. Chawca disse:

    A maioria dessas pessoas não sabem o que é derpessão de verdade, quando souberem nunca mais vão dizer que sentem..
    Eu já passei por isso, quase surtei ao ponto de achar que ia morrer, gastei muito dinheiro com tratamento e remédio e a última coisa que quero na vida é dizer que estou com depressão..
    Não desejo pra ninguém..
    Um abraço;..

  3. beeanka disse:

    “O analista de Bagé” é o melhor, ainda vou ter meu exemplar ^^.
    Só tive a chance de ler algumas crônicas :/, mas tenho certeza que todas são ótimas ^^.

    Você é gaúcho/catarinense ou só mora por aí?

  4. Daniel Becher disse:

    Oi Beeanka,

    eu sou catarinense!

  5. beeanka disse:

    E eu sou gaúcha, recentemente mudei pra Florianópolis ^^.

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