Riquezas mal administradas

Peter Drucker, pai da administração moderna, já dizia que não existem países subdesenvolvidos. O que existem são países subadministrados. E ouso dizer, ainda, Peter, que existem países com pessoas e recursos subadministrados, em todas as esferas, em todos os meios.

Hoje, por exemplo, saí de casa motivado a comprar um livro de poesias publicado pela primeira vez no século XIX, mais precisamente em 1872, escrito por José Hernandez, escritor argentino. El gaucho Martin Fierro é uma das obras de maior importância cultural já feitas naquele país, onde Hernandez narra o verdadeiro caráter gaúcho que, muito pouca gente sabe, é originário da Argentina, da região dos pampas.

Primeiro, tentei comprar nas mais conhecidas livrarias virtuais. Nada, tudo esgotado. Estranhei, é um livro antigo e com muitas republicações, recompilações e traduções.

Recorri então aos sebos aqui de Florianópolis. O que mais me chamou atenção e o que gera meu espanto todo, e não sei na sua cidade, mas aqui é um reflexo de todo esse ramo, é que num deles o “cara que cuidava” do comércio me disse, sem pudores:

Temos mais de 8 mil títulos. Bem provavelmente temos este. Você pode ir procurando por aqui, enquanto sua namorada procura por ali” e usando de gestos apontadores para definir os nossos focos de procura.

Ou seja, oito mil livros, cultura e mais cultura morta, perdida, apodrecendo, sem que ninguém tome a iniciativa de catalogar, divulgar, colocar os preços, oferecendo para a pequena demanda que nosso país gera em cima de leitura comparada ao número de habitantes, a oportunidade de usufruir dessa riqueza.

Mas não é culpa do atendente, que estava mais preocupado em enxotar do local um cachorro transeunte, ainda que ele não siga a regra que o Alessandro Martins criou de que os melhores atendentes estão nos sebos. Este legado é histórico e cultural brasileiro, país onde o presidente declara livremente e sem medo de ser feliz que não gosta de ler.

Martin Fierro nunca existiu de verdade. Mas ao mesmo tempo ele retrata a vida do gaúcho dos pampas, tradição trazida para o sul do mundo, resgatando as origens do índio campeiro mala suerte. Mas, se depender daquele sebo, ele será enterrado de forma cruel e fria, assim como Martin Fierro, e eu nunca saberei quem ele foi de verdade. Simplesmente porque alguém tem uma riqueza na mão e não sabe administrá-la.

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5 Responses to “Riquezas mal administradas”

  1. Oi, Becher! Obrigado pela citação… digamos que eu não criei a regra. Apenas a observei. Como Newton fez com a gravidade :-)

    E, de qualquer forma, não é uma regra geral. Ela, naturalmente, tem exceções… felizmente.

    Abraços!

  2. Libanesa disse:

    Nossa, El gaucho Martin Fierro… Sensacional! :) Aliás, recomendo “Contos do Vigário” do Andrés Openheimer – um argentino que mudou-se pra NY e especializou-se em América Latina. Concordo absolutamente com ele quando explica que nós, chicos, nos justificamos demais pela dependência histórica de nossa colonização e não olhamos para nossa própria falha administrativa por aqui. Enfim, é interessante. Já estamos carecas de saber que populismo e cartilha vermelhinha só serve para afundar mais as econimias latinas, mas o livro é divertido. :)

    besos e, poxa, você conhece El gaucho Martin Fierro!

  3. Infelizmente aqui em BH é a mesma coisa em quase todos os sebos. Quando você pergunta se tem algum título, o dono do lugar finge que pensa e fala que não tem. PQP. O cara tem mais de 10.000 livros e sabe o nome de todos decor?
    Fico com aquela cara de “pode deixar que eu vou procurar…”
    Garanto que se eles utilizassem algum catálogo dos livros que tem, venderiam mais livros. Mas informática é coisa de nerd, não de livreiro de sebo, não é mesmo? Pelo menos eu acho que eles devem pensar assim.

  4. [...] de Martin Fierro Author: Daniel Becher Bah, já estava descrente. Pensei que eu morreria e não leria Martin Fierro. Já até achei na Internet o livro [...]

  5. Fernando disse:

    Martin Fierro!!!! quem diria, “los hermanso” tambem copiaram esse e dizem que é deles a idéia. Na realidade existe uma obra anterior, muito semelhante (coincidencia) escrita por no Uruguai por um uruguaio. Claro que como o Uruguai é um pais pequeno, levou um empurrão e calou-se, mas que “Martin Fierro” é um plágio, isso é.

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