Reminiscências da Campanha do Paraguai

Virei rato de sebo. Principalmente em um sebo onde o dono e atendente diz que tem mais de 8 mil livros e não tem ciência do valor de cada um deles, lhes colocando preços pelo tamanho e pelo estado de conservação, apenas.

Hoje, no trajeto casa – empresa após o almoço, passei lá denovo em busca de algo diferente pra ler, já que as três últimas aquisições já foram devidamente lidas. Encontrei um livro do General Dionísio Cerqueira, que foi um relato da Guerra do Paraguai, chamado Reminiscências da Campanha do Paraguai, publicado 40 anos após o término da Guerra (também conhecida como Guerra da Tríplice Aliança), em 1948. Dionísio Cerqueira entrou na batalha “cabo” e saiu “Tenente de Infantaria”.

Dionísio era um homem culto e, pelo que pode-se perceber nas trinta páginas introdutórias da obra, escreve o acontecido nos pampas confiando na fidedignidade da sua memória. Como o autor mesmo diz com suas palavras: “Nunca me sobraram lazeres para escrever diários, nem possuí ementários para apontar o que ia sucedendo. Se tentasse fazê-lo, certamente tudo se perderia, tais os percalços da nossa vida então. Guardei a lembrança dos lugares, dos homens e dos seus feitos, e a reproduzo neste livro, tal qual ainda existe.”

Não pude deixar essa preciosidade ali, jogada na estante daquele velho e úmido sebo, sendo comida pela traça e desgastada pela umidade do recinto. A comprei por míseros cinco reais, bem longe de ser o valor real de uma raridade destas. Ainda que fosse sua terceira e última edição, publicada pela Editora do Exército… muito barato. A livrei das traças e me livrei da ignorância em relação ao assunto que, confesso, ter me encantado de forma tal que mal consegui tirar os olhos para escrever o post.

“Chovia sobre ele e sobre nós uma saraivada de balas, que passavam silvando, gemendo como gente, miando como gatos, cantando como pássaros em trilos e gorjeios; umas, roucas; outras, aflautadas; algumas, fanhosas, ligeiras, cortando os ares com sons provocadores, sons de látego; ou lentas, vagarosas como um ai que vai morrendo.”

5 reais? Pra mim, esse parágrafo já valeu cinco pratas. Aliás, alguém sabe quanto tá custando o novo livro do Harry Potter?

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One Response to “Reminiscências da Campanha do Paraguai”

  1. Manoel Elias Soares disse:

    Li várias publicações sobre a Campnha do Paraguai mas, nenhuma impressionou-me tanto quanto os relatos de Dionísio Cerqueira. Comprei o livro em um sebo de rua ainda bem conservado, levei para casa e coloquei na estante. Estava cansado das histórias unilaterais que somente falam da bravura e feitos dos soldados brasileiros. Sem querer desmerece-los. Passaram-se quinze anos e não tinha ainda tomado coragem para ler aquele livro. Certo dia, verifiquei que o mesmo já tinha várias folhas soltas. Decidi encarar. Que surpreza! Uma narrativa clara e viva, senti-me no teatro de operações vendo o jovem Dionísio em lutas. Recomendo sempre aos estudantes e amantes de história militar. Abraços à todos.

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