Projeto Pescar – até que enfim, um exemplo

Patricinhas de todos os cantos adoram ver um documentário meia boca na Globo e verter lágrimas de crocodilo pela pobreza e a falta de recursos sociais do país, no conforto da sua king size com TV à cabo, Internet e restaurante delivery. Benza à Deus por elas, diria minha vó, melhor que nada. Mas não é raro vermos o terceiro setor recheado de porcarias e estultices em nome da caridade e uma pseudo-responsabilidade pelas pessoas menos favorecidas.

Mas existem projetos sérios que realmente têm um papel social importantíssimo, deveras RELEVANTE. Falo do Projeto Pescar que ajuda pessoas Brasil afora a encontrarem seus rumos profissionais e se tornarem cidadãos de verdade, com dignidade, amor próprio e uma identidade, que vai além do RG.

“Não dê o peixe, ensine à pescar” é o lema dessa instituição. Ela tem como mantenedores tanto instituições privadas quanto públicas e recebe ajuda de algumas internacionais, como a Unesco. Segundo o próprio site informa, funciona no sistema de “Franquia Social”, ou seja, as organizações abrem cancha e oferecem suas instalações para a formação de adolescentes que estão sob “vulnerabilidade social”, uma expressão bonitinha que eles acharam pra não falar pobres, menos favorecidos, não-abastados o suficiente pra poder crescerem sozinhos.

E eu conheci o projeto de uma forma inusitada. Vez por outra, o diretor técnico da empresa onde eu trabalho me chama pra fazermos apresentações das obras supervisionadas e/ou projetadas por nosso corpo técnico para as comunidades beneficiadas ou para empreiteiras envolvidas. Lá chegando, me deparei com uma turma de mais ou menos 20 jovens aprendizes e uns 6 funcionários do DEINFRA (Departamento Estadual de Infra-estrutura).

Trazido pra Florianópolis como nome de FLORIPESCAR, pelas mãos do Sr. Romualdo França, Presidente do órgão citado, o projeto forma aprendizes de “auxiliares de laboratoristas”, que trabalharão, futuramente, na construção de rodovias e obras de infra-estrutura rodoviária.

Pelo que andei fuçando, tanto com os funcionários do próprio DEINFRA quanto lá na empresa onde trabalho, de quase 50 inscritos na primeira turma, 22 passaram por um processo seletivo pra começar o projeto. Cada um dos jovens de até 19 anos de idade, já tem emprego certo ao se formarem. As empresas que apóiam o FLORIPESCAR não só contratarão os aprendizes como já fornecem uma ajuda de custo, algo em torno de R$200,00.

Você, leitor, pode parar e pensar: mas 200 reais é pouco. Depende. Depende muito. Pra quem não tem NADA, ganhar 200 pratas pra ESTUDAR e se ESPECIALIZAR (já que é requisito do projeto estar matriculado no colégio), é DEMAIS. Quando eu comecei a trabalhar, eu não tinha nem os 200 reais (convertendo pra inflação de hoje), quem dirá a MELHOR especialização do mercado pra área de laboratório de solos e asfalto (que é o próprio laboratório do DEINFRA).

Às vésperas de mais um pleito, já desanimado com tudo, eu senti inveja daquela gurizada passando as suas tardes lá, hoje. Vi que nem todo mundo que recebe ajuda de ONGs são vagabundos como eu pensava, quebrando preconceitos e paradigmas meus. E saí de lá, confesso, com uma pontinha de inveja daqueles rapazes que estão agora começando com com uma assessoria gigantesca e já com emprego garantido.

É bem provável que eles também queriam estar no meu lugar agora, com um salário razoável, um carro na garagem, um bom lugar pra morar e coisa e tal. Porque a pescaria do vizinho, invariavelmente, sempre parece mais produtiva que a nossa…

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