Ai de mim se, quando criança ou pré-adolescente, chegasse pra meu amigo Paulinho e dissesse que troquei de time. Ai deste gordinho, o assunto logo logo estaria na boca da gurizada do bairro e eu seria o maior traidor das redondezas, criticado até pelos torcedores do time rival, ainda que eu tornasse torcedor solidário a eles.
Até pouco tempo atrás dizer que você mudou de time era trair algum movimento, era feio, uma atitude tão desgraçada quanto bater na mãe e chamar a professora de vadia (tudo bem, isso hoje é normal, fiquem com o exemplo da mãe. Ôpa, eu não falei com você, Suzane von Richthofen!). Era possível você receber a excomunhão da Igreja se parasse de torcer pro Flamengo e vestisse a Cruz de Malta.
O fato é que a grande e esmagadora maioria dos clubes virou clube-empresa, ou seja, gere seus negócios tal qual uma organização e espera receber lucros por isso. E eu acho isso louvável, afinal ninguém trabalha e nem deve fazê-lo de graça. É necessário botar comida na boca dos jogadores de base, tratá-los como frangos jovens que, a qualquer momento, precisam estar gordinhos para o abate de algum outro empresário explorador grande clube assim como todo o restante da estrutura.
Mas com as coisas boas, também vêm as ruins neste processo de transformação. Um clube-empresa passa a ter clientes e não somente torcedores e estes podem vir a cobrar de forma mais apaixonada ainda os resultados daquela instituição; o negócio se torna punk principalmente quando ele é sócio pagante, afinal INVESTE dinheiro por lá.
Desde que o profissionalismo tomou conta do Figueirense, o time que eu acompanhei desde onde minha memória — que não é ruim — pode recordar — talvez uns 5, 6 anos de idade, eu não tenho mais uma camiseta do clube. Eles precisaram contratar uma outra grande organização pra que cuidassem do material esportivo do time e, como sabem, não existe obesidade no Brasil. Torcedores grandões como eu se viram nos trinta com uma GG melhorada, intitulada Extra G. Os que não conseguem, fodam-se, “nossa organização não tem como criar modelos específicos em baixa escala”.

Estádio Orlando Scarpelli, a sede da empresa que me tinha como cliente
Desde que viramos clube empresa (sim, eu era sócio, também poderia chamar de “meu”), não conseguimos ficar mais de dois anos com um grande jogador, seja ele revelado pelo clube ou contratado já criado — raras foram exceções, muito raras. Até o Edmuno que aqui esteve e fez uma excelente campanha, usou o clube como trampolim pra reaperecer no Fantástico marcando o gol da rodada. O mesmo aconteceu com César Prates que jurou amores eternos ao clube, mas foda-se a camisa, foda-se o que ele disse, ele era um “colaborador que recebeu uma proposta melhor”.
Desde que viramos um Clube S/A, nós não ganhamos absolutamente nada além de uma vaga na elite do futebol brasileiro sempre se segurando pra não cair pra segundona. Campeonatos regionais não valem, bater em aleijado deveria ser crime.
Isto posto, eu não quero ser interpelado na rua por torcedores do time que eu também torcia sendo acusado por traidor, por ter virado a casaca ou coisa parecida.
Eu quero que vocês entendam, nobres ex-colegas, que eu sou um cliente insatisfeito. Eu não quero mais ser cliente da Figueirense Participações porque o produto Figueirense, como time de futebol, não satisfaz mais as minhas necessidades como torcedor.
Pra ser bem sincero, eu nem quero mais ser cliente de futebol, mas quero uma empresa que a partir de agora me satisfaça somente em alguns momentos raros em que eu quiser consumir o produto, e ele DEVERÁ ser bom. E um excelente método de me ganhar para a sua carteira seria vencer este campeonato Brasileiro. Quem sabe, numa dessas, eu não vire cliente do Grêmio por uma temporada até enjoar e decidir experimentar outro fornecedor?