Venho de uma família de gente simples, de gente que se criou comendo pirão de água com peixe frito, numa cultura de parcial subsistência. Metade da minha genética vem da roça, italianos e alemães que se juntaram num marreco com repolho roxo e vinho tinto. A outra vertente de descendência portuguesa, criada na beira da praia numa época em que poluição não existia e o almoço se colhia ali mesmo.
Quando criança, sempre tive tudo do bom e do melhor, confesso. Não fosse assim, não justificaria de forma alguma a minha evolução adiposa adquirida ao longo dos mais tenros e remotos anos da minha existência. Porém luxo nunca conviveu na minha casa, mesmo nos tempos áureos da carreira do meu pai como diretor de uma empresa, nos idos da década de 90.
Não por isso prego que tem muita gente cagando e limpando o seu orifício anal com notas de cinquenta, mas pelas barbaridades que acabo constatando neste mundo moderno, onde mais nenhum bem material satisfaz o sujeito, tendo de inventar formas de queimar dinheiro sem parecer fútil, justificando o tal ato.
Assisto agora pela TVCom, num programa de variedades, ou seja, uma cópia deste blog sem a opinião desbocada que tento lhe empregar como característica, uma entrevista com uma podóloga. Eu primeiro tive muita dificuldade para entender o que fazia o tal profissional que cuida da saúde dos pés. Dizia a moça de estatura média, um pouco acima do peso e com uma cabeleira loura elegante, que um de seus clientes mais novos era um bebê de oito meses que tinha algumas “pelezinhas” nos pés e que os recém papai e mamãe a procuraram para tratá-lo desse “mal”. Peraí, desde quando isso é uma doença? Não estou falando de casos crônicos da pele, de doenças relacionadas à ela e para isso temos os dermatologistas.
Eu fico imaginando o meu pai na época da minha natalidade, chegando em casa cansado após encerrar o expediente do terceiro emprego e chegando pra minha mãe, no velho estilo seo Clóvis de falar:
- “Olha, neguinha, o Daniel tá com umas pelezinhas no pé que eu não estou gostando. Vamos levá-lo à um médico, pode ser algo grave como… como… enfim, algo grave.”
Aí minha mãe, sutil como um hipopótamo com cachumba, diria no seu português gracioso de oitava série:
- “Olha, neguinho, você fumou maconha?”
- Essa merda de trabalhar em três empregos por dia está me matando. Arranca com a unha mesmo, deve ser uma viadagem qualquer” – conclui o meu pai, filho de oficial da Polícia Militar, mais grosso que dedão destroncado.
A rudez da simplicidade evita diversos males, inclusive gastos desnecessários com idiotices do mundo moderno. Mas há de se ter consciência dos males, do que é pernicioso e pode causar problemas. Ademais, iremos procurar motivos e, mais das vezes, bens e serviços para curarmos nossa falta interior, para um dia, quem sabe, acabar deitado num sofá falando asneiras com um cara que não te dá resposta nenhuma e é pago para fazer o que aquele seu amigo, aquele mesmo que faz quatro meses que você não fala (ao telefone), faria com um sorriso na cara e de graça. O psicoterapeuta de gente simples.
Eu fui uma vez na podóloga.
Nunca senti tanta dor na minha vida, mas meus dedões não reclamaram uma vez sequer por uns 6 meses.
É uma boa alternativa pra não arrancar a unah do dedão fora
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