Diz-nos a Wikipedia que a Síndrome de Down, descoberta em 1862 pelo médico britânico John Langdon Down, é um distúrbio genético causado pela presença de um cromossomo 21 extra. Pessoas com a síndrome têm algumas características físicas em comum, como dificuldades na habilidade cognitiva (retardo mental, por exemplo) e traços do rosto típicos. Crianças ou adultos, não importa, o rosto é inconfundível.ca
É um fenômeno que pode acontecer com qualquer um, em qualquer raça, vivendo em qualquer classe social, tendo qualquer credo na família. Mas mesmo assim, é atávico o preconceito das pessoas consideradas “normais” perante aos “downs”. Não entro em detalhes, é desnecessário.
Hoje eu passei por uma situação interessante. Fui atender um cliente em sua casa quando vem o filhinho dele, que tem síndrome de down. Enquanto conversávamos, ele chegou mais perto, me deu um abraço apertado com seus pequenos bracinhos, um beijo carinhoso e saiu para dormir. Não antes, porém, de me dar “boa noite” em dois idiomas diferentes.

O beijo não durou mais que três segundos, mas foi incrível como um filme passou pela minha cabeça. Colorido, PAL-M, mas não tinha som. Era início da década de 90 e eu estava no ensino fundamental, raros os colegas que tinham um contato mais próximo comigo. Pode parecer besteira, mas os queridos pimpolhos evitavam chegar perto de mim porque eu era gordinho. Não por ser gordo, exatamente, mas por ser “diferente”. Aqui não estou considerando ser o motivo das chacotas por toda a minha vida estudantil, estou falando só dos primórdios da escola, que a tarca do tempo não me deixa esquecer. Eu era frustrado. Talvez ainda seja, só talvez.
Pra o Beto, como vou chamá-lo nesse post, seu cromossomo 21 que recebeu de “bônus” na sua formação genética fez a diferença na vida de um marmanjo de 25 anos de idade. Beto, hoje, deu o beijo que outrora fui aviltado de receber anos atrás, por conta do mesmo sentimento, o preconceito, que ele provavelmente sofre e indubitavelmente caga e anda, ainda criança e sem entender muito da sua característica, mas que não passa adiante.
O mais engraçado de tudo é que, muito embora eu não estivesse sendo simpático com o garoto por algum tipo de política correta, tinha um certo receio de que o meu cliente assim pensasse. Quando o medo não é de chegar perto, o nosso medo é que as pessoas pensem que chegamos perto pra que elas não pensem que estamos fazendo. Beto não tinha nenhum receio, pelo contrário, além de não ficar assustado com este joão-grandão que vos escreve, se virava nos trinta com seus pequenos bracinhos pra tentar preencher a circunferência da dadivosa pança que carrego na garupa.
Beto não me ensinou nada, não foi um exemplo de vida e nem uma dessas besteiras que o Faustão diria de um convidado do Domingão com qualquer dificuldade. O que Beto fez foi me devolver aquilo que eu achava que era meu de direito e dever; que uma criança de seis, sete anos de idade me desse um beijo e tratando como igual perante as desigualdades das nossas formas e medidas. Antes tarde do que nunca, diz o velho clichê.
E eu saí de lá envergonhado por cobrar do cliente que mal sabe que me deu muito mais do que dei a ele. Talvez, com o dinheiro, eu compre um cromossomo 21 extra.
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